08/08/2009 20:03
Água
and yes I said yes I will Yes
James Joyce, in Ulisses
Estou aqui, como antes já estive quase.
Estou aqui, ainda que não-estar por vezes tenha sido minha especialidade.
Na alma a agudeza como pede o sangue e não como manda o figurino.
Estou cansada de atravessar paredes, ofício que me inclina
à dor insolúvel de parecer não ser igual a nada; da minha imagem pintada em tons espúrios pelos desprovidos de suavidade
e talento para justificar seu espaço no planeta.
Desde sempre aturo a leitura rasteira do que paira e respira
visível ou invisível no meu estar aqui.
É o preço do líquido existir.
Engendro no silêncio minha vera história, escrita estritamente
com meus traços. Não a alegoria de tintas distorcidas
que me quer suspeita, estridente, e minhas esquinas aparadas.
É nefasta, a covardia.
Farta dos enfoques banais, mas de olhos bem abertos
espreito a noite surda, espanto o cheiro traiçoeiro no ar.
(Lírios nascem pelos cantos quando sonho assim desperta
e me remetem ao vinho que tantas vezes adivinhei em lábios
atemporais,
no ouro de um poente à beira do Mediterrâneo,
nos poemas de Yeats, no perfume insondável de musgo e liquens
que povoam certas tardes, nas cortinas alvas e fartas
a filtrar com ousadia a alegria selvagem das manhãs.)
Vou pela treva intermitente de olhos abertos.
O que é a treva diante do frescor de minha inata joie de vivre?
Sei já perto o Meu lugar, onde respira pura a música de Antonio,
verão perene em minha vida.
Estou cansada mas viva como uma pérola no centro cinza da ostra.
Minha cara no espelho: ainda a mesma fome. Minha cara no mundo:
íntima de avessos, trato de atravessar o direito com tolerância
e graça.
Estou cansada mas absolutamente aqui.
Ledusha S.
enviada por Ledusha
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