18/12/2008 14:21
Prece de um dia quase igual a todos
Deus dos delicados, não me abandone nessa guerra insana.
Minha máquina de ser beira a pane
enquanto o veludo da voz de Billie
lambe as paredes do lusco fusco.
Abençoe, senhor, tudo que dói em nós, indispensável.
As tardes despenteadas em Grumari,
as lágrimas do homem que me amou e nunca disse,
o negro agonizante sob o sol narcísico de Ipanema,
as crianças que tão cedo me deixaram
farta de lágrimas e leite,
o eco esquivo de Frederico, sinais de musgo.
Abençoe as escarpas da minha vida
enquanto desenterro estas palavras
- o carmim destas palavras -
com as lascas afiadas da dor.
Sonho piscinas, atraída pelas labaredas.
Preciso dormir bem dentro das suas asas enormes,
pai.
Ledusha S., em Exercícios de Levitação (Ed. 7 Letras, Rio)
Pierre Bonnard
enviada por Ledusha
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