15/12/2007 12:50
Beatriz aceita jantar

Desceu do carro ajeitando a gravata, atente: be cool. Os cabelos molhados para trás, my god. Assim, sem exclamação, my god. E-vo-quei, praticamente, essa chuva! Seu olhar sempre bóia numa onda difusa. Sobrancelha incisiva, testa, nuca e dentes corretos. Nocaute: irresistível, a maldita gravata. Sim, tudo é menos raso e mais delicado. O analista só sabe repetir o nheco-nheco de que esses detalhes não passam de subterfúgios. A mim não bastam os cenários; a seiva de que são feitos certos homens sim, me importa. Chegaremos à outra margem, aos uivos? O coração tentando não sufocar entre os dedos macios da paixão e a porosa ameaça do vácuo. Moles até às unhas, perturbados pela asfixia latente que nutre certas conexões, ah, vou fumar depois de anos sem tocar um Marlboro. Não quero ficar nadando em círculos até o puto do fim dos meus dias. "On dit qu’il n’y a pas d’amour heureux, mais c’est le contraire." Isso ela disse segundos antes d’appeller la policie: tocou o alarme. Vraiment une dégueulasse. Num instante luminoso, soprarei a fumaça do cigarro na sua cara, e ele fechará os olhos. Não será uma tentativa de ser fatal, por mais que pareça. Esse calor altera de leve os sentidos... hei de tocar a turbulência que está na origem dos seus gestos. Até dos inúteis. "Vamos?" - Visto a capa sorrindo.

Ledusha S., em Exercícios de Levitação

E. Boubat
enviada por Ledusha






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