24/11/2007 02:40
virar a página
Recobro o fôlego após um passeio de trem fantasma. Aqueles fiapos pegajosos passando pelo meu rosto na penumbra acelerada e eu engolindo os gritos alheios. Agora de volta ao sol, mas também à música brega do que não é um parque de diversões: são os nossos dias, como agora se apresentam quase na totalidade dos seus aspectos. Se você tem um mínimo de percepção e sensibilidade, é inevitável constatar que o mundo se rende à boçalidade. E sem bossa nenhuma, os humanóides foram quase todos pro brejo. A arte não imita a vida ou viceversa, e acabou-se a graça. Afie as narinas: perceba no ar o odor enjoativo: caretice e sangue coagulado. Parentes muito próximos. Penso em Waly e Glauber com seu discurso barrocaóticolúcidopaca. Luis Melodia, Paulo Mendes da Rocha. Tunga e o tabuleiro de xadrez à la Duchamp. Penso com alívio em Ciro Pessoa, em Sua Santidade o Dalai Lama, no Maestro Soberano, em Grace Gianoukas. Em Chiquinho Teixeira e sua Alice implodindo a casa que assombra e oprime; Rogério Sganzerla, antena absoluta. Há variadas luzes assim (que não se apagam, nem no chamado além)pelos cantos do planeta - essas que cito são só algumas q me ocorrem agora - e isso é o que pode nos salvar da barbárie que espreita nos vãos do que chamei nossos dias. Apuremos os ouvidos, os olhos, as almas, as mãos, é a hora.
Ledusha S.
E. Boubat, Rémi écoutant la mer
enviada por Ledusha
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