17/10/2007 13:01
Crônicas & Relatos
Nelson Rodrigues salva poeta de afogamento em aquário
Imagino que poucos saibam: trabalhei uma incerta época na revista Caras. Pois é.
Encontrava-me numa dessas fases desesperadoras pelas quais todo artista, escritor, e mais ainda, todo poeta, passa vez por outra, isto é, mais vezes que por outra. Nesses calvários nos sentimos como as tias de Cortázar, de pernas pro ar feito uma barata, sem poder fazer outra coisa senão agitar desesperadamente as patinhas. Se Maiacovski diz que o poeta é um operário, posso dizer que já senti na carne da alma: nesse mundinho em que vivemos, meu amado poeta, nem isso. Aqui as baratas de pernas e pés fincados no chão é que são caras.
Mas voltando ao assunto: ao encontrar trabalho, conforme me foi proposto um frila fixo, paradoxo este que nem Heráclito, num dia de absoluta inspiração e raro bom humor engoliria , me senti como um náufrago ao tomar o redentor gole de água doce fresca após longa saison en enfer de uma ilha sem nascentes ou minas dágua, o que sinceramente não sei se existe, mas não importa: quero é ilustrar a sede.
Porém, na terceira semana comecei a perceber coisas estranhas, além de que ali naquele aquário eu não era simplesmente um peixe fora dágua: não tinha a menor capacidade ou talento para fazer parte do cardume.
Entrava às dez da manhã, e por volta da uma e meia, ao sair para almoçar em grupo naqueles restaurantes por quilo, uma angústia sórdida me tomava e, depois de engolir aquela miscelânea fingindo a mim mesma algum prazer, uma azia dalma me assaltava as esperanças e outra, mais concreta, o estômago, para em seguida se transformar numa crise doída de gastrite. Passava a tarde em companhia desta, tentando fazer algo do que sabia, mas não era isso o que esperavam de mim, e dessa forma também uma sombria desolação me acompanhava até a noite. A partir das oito, minha cabeça iniciava uma metamorfose e ia se transformando rapidamente numa espécie de panetone oco e latejante, se é que vocês me entendem, até a hora de assinar o livro na portaria do térreo, por volta da meia noite, uma hora, e pirulitar dali, para chegar em casa e dormir à base de ansiolíticos, antes que explodisse. Soube depois que já me tornara hipertensa. Ignorando o fato, persisti. Afinal, aquele frila fixo ainda me parecia a tábua de salvação para os pepinos materiais e existenciais que castigavam sem piedade a mim e à minha filha.
Um dia acordei mais lépida ainda não sei porque, pois motivos para isso não me sobravam, exatamente e peguei para ler no café da manhã o livro Flor de Obsessão, organizado pelo Ruy Castro, com as melhores frases de Nelson Rodrigues sobre vários assuntos. Já estava no último gole de café quando uma delas me atravessou como um raio, com tal força, que não pude deixar de imprimi-la, recortar o trecho e leva-lo para o trabalho. Chegando lá colei a frase na parede forrada de pano da minha baia (expressão indecente inclusive para éguas), entre uma foto da minha filha e outra do meu amigo Nelsinho Motta que recortara de uma edição passada da própria revista, seguida por uma do Tom Jobim, que carrego feito um amuleto por onde vou. A frase era a seguinte:
O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.
Não tenho certeza de que a alegria dura pouco, como dizem, pois conheço algumas permanentes; o que sei é que pouco tempo depois a tábua de salvação que, cá entre nós, não era propriamente uma alegria, me escancarou seus pregos, e em seguida minha pressão me derrubou literalmente no chão, desmaiada, num fim de tarde ao lado da maldita máquina de café, na saleta anexa à redação.
Creio que não preciso lhes explicar porquê, a frase de Nelson agregada à excessiva sensibilidade que Deus me deu, foram suficientes para que eu desse bye bye ao aquário e, evidentemente, ele a mim.
Diz o ditado que toda experiência é válida. Depois dessa, só posso rebater com outro: e pimenta no dos outros é dry martini? Gostaria de não abusar do nosso genial cronista, mas não encontro final mais próprio a este relato do que esta sua sábia frase: o ato de opinar compromete ao infinito." Ainda bem.
enviada por Marcela Tavares
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